Mulheres que brilham

enceradeira anos 60

Hoje me dei o luxo de acordar tarde, virar para o lado e me deparar com a TV que ficou ligada desde hoje cedo ontem com a mesma programação lúdica do primeiro horário do canal. Fiz uma cara de “saco cheio”, mas continuei a fitar aquele programa que de tão imbecil me faz dar gargalhadas internas pelas piadas já previstas de um menino que mora num barril e uma feminista que bate no personagem mais underground e foda da série.

Logo depois começou outro programa: Raul Gil.

(pausa dramática)

Hoje me dei o luxo da inércia. Me acomodei morgadamente na posição em que estava há 15 minutos e continuei a assistir ao Raul Gil. Sou do tipo que, se o controle está longe eu me entretenho até com Usurpadora e me entretive com crianças dançando músicas de gente grande e padres que cantam Raul Seixas. Antes dos comerciais o vovô Raul comentou sobre as próximas atrações e dentre elas uma era patrocinada pela marca Bom Bril. Qual? “Mulheres Que Brilham”.

Achei interessante o projeto, entretanto me fez pensar que é uma forma sutil de machismo tão bonita que acaba até passando batido. Não tive tempo de discutir com ninguém sobre tal fato, mas lendo sobre a história do BromBril Mulheres o site vende a informação de uma maneira muito poética e sublime, mas quando se entra na fanpage da BomBril se depara com a frase de capa “Ser mulher é tudo de bom!”, mais diversas promoções exaltando a rainha do lar e um vídeo do qual muito me intrigou “Homem 1001 utilidades”. O vídeo mostra a disputa entre dois maridos na arrumação de uma cozinha, um duelo que seria até bacana se no vigésimo segundo a Especialista BomBril não tivesse iniciado o super papo com a frase “eles tentam, mas só mulher mesmo pra fazer bem o serviço doméstico”.

Não sou feminista-vadia-chata, mas acho que o país ainda encara a mulher como a salvadora dos lares, que limpa, que cuida dos filhos, que lava roupa do marido, que deixa a janta pronta no fim da tarde. Enfim, que vive dos anos 50. Talvez façamos realmente melhor os serviços domésticos, mas isso não precisa se tornar uma batalha campal. Não precisamos provar nossa feminilidade porque gerenciamos uma empresa. Somos sensíveis, às vezes nos doemos por causas alheias que não têm nada a ver, mas deixe-nos em paz com nossas famosas intuições e que a sociedade perceba a voracidade feminina sem que precisemos de um patrocínio ainda mais da BomBril.

Somos mulheres e ponto.

[♪] Ao som de Yann Tiersen.

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