Uma surra do universo

 

Às vezes a gente só precisa ser desafiada para perder aquela casca de insegurança.

Esses dias de ócio estava assistindo a uma youtuber que se dizia insegura e falava sobre sua ansiedade. O vídeo tinha seus nove minutos e sua voz era irritante o bastante para que eu não aguentasse ouvir mais do que sessenta e sete segundos. O vídeo acabou. Me identifiquei. E logo em seguida tomei uma surra do universo.

Sim! Fui nocauteada pelo meu cérebro! E, por ironia, segui os passos de explicação rasa vinda uma youtuber de voz irritante sobre como se manter calma durante a ansiedade antes de apresentações importante: respirar fundo, estudar, estar preparada e confiar em si mesma. É simples! Porém, complexo.

Sigo uma religião humanista onde me foi pedido para falar em público sobre um dos dias mais especiais para nós. Senti um leve desespero, mas uma vozinha de Fábio Franzoni soou em meu córtex frontal dizendo “diga sim! Você vai ver o quanto você vai crescer por isso. Sim!

Precisamos também de um vídeo para o aniversário da Cris e do Nelson. Aproveitei o embalo e disse sim novamente, até porque, considero esse casal como meus terceiros pais, não iria negar e botei na cabeça que faria um dos vídeos mais fodas de todos os tempos!

Não tive tempo de estudar tanto. Não tive tempo o bastante para me dedicar ao vídeo. Fiz o melhor possível nas duas tarefas e lá fui eu participar da atividade. Fui a primeira a ser chamada para falar. Me embolei, mas depois fui concisa. Tinha cinco minutos e usei três. Palmas! Prosseguiu-se a atividade. A ansiedade ainda não tinha acabado, havia o vídeo que seria apresentado apenas ao final da reunião.

Final da reunião. Confesso que pensei não ter feito o bastante, mas aí pelo reflexo do plasma de uma TV de várias polegadas vias as mãos no rosto, os ombros que tremiam, os olhos marejados. Olhei para trás para ver aquela cena na vida real e tudo aquilo estava acontecendo ali mesmo. Era a realidade superando a expectativa e me senti a pessoa mais foda naquele instante. Chorei.

Chorei com eles. Um choro leve. Um choro de certeza de que dois mil e dezessete é o início dos meus melhores “hojes”.

Me sinto grata pela presença do meu namorado em minha vida nesses quase um ano de parceria que tem nos feito crescer, pelo apoio da minha família, pelos novos familiares que ganhei nesse início de jornada e pelo vídeo da youtuber de voz irritante. Obrigada.

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Perto e longe

Fiz minha oração e disse que ia dormir.

Não fui.

Fiquei ali deitada em meio a tudo o que é dele. Hoje ele não dormiria comigo. Bateu saudade.

Namoro à distância tem dessas, temos saudade de detalhes. Saudade do cheiro, saudade do toque, saudade do arzinho que sai da voz, saudade do brilho do olhar quando ele me encara depois do beijo, saudade do abraço no meio da madrugada, saudade do virar de lado do outro lado da cama que a gente senti sem se tocar. Tenho saudade da companhia, mas essa eu sinto de longe.

Mas saudade de verdade é passar uma noite à distância em meio a tudo o que é dele. Roupa de cama, travesseiro, peças íntimas, barbeador, aquele restinho de café da manhã, quadros, HQs e tudo ter apenas o cheiro. É só uma noite que apenas alguns metros nos separa e mesmo assim é namoro à distância. Perto e longe.

Confesso ter escorrido uma lágrima. Acho que te amo.

Sono bateu.

Boa noite.

doc o sal da terra | lisergia verbal

Doc: O Sal da Terra (isto não é um review)

Se você acha que este será um review sobre o documentário O Sal da Terra. Fique à vontade para ler, mas já aviso: isto não é um review.

Hoje estava uma tarde nublada, quando o ócio me atacou. Tinha coisas para fazer? Sim. Estava com dois podcasts para editar, alguns reviews para fazer, mas hoje estava um dia tão, tão, TÃO gostoso. E eu estava tão, tão, TÃO sentindo falta de mim, que resolvi deixar meio dia de deveres de lado e reencontrar a Cal que está perdida em meio a títulos de podcaster, filha, irmã, namorada, amiga, analista de SEO. A partir das 15h fui apenas eu.

Voltei com o velho costume de garimpar filmes de acordo com as categorias secretas da Netflix. Assisti a dois. O primeiro título dessa roleta russa cinematográfica foi “Tudo Por Uma Esmeralda”, um filme dos anos 80 super Sessão da Tarde, onde crianças dirigem conversíveis e homens vêem as mulheres como seres intocáveis, mas com inegáveis desejos nos olhares. Basicamente isso.

Durante a escolha do próximo, lá estava eu olhando pela janela e aquele clima de estação transitória me chamava para um programa ao ar livre. Escolhi um filme do qual o nome não me era estranho: O Sal da Terra. Me troquei, pausei nos créditos e saí. Talvez pelo clima frio, não havia muitas pessoas andando pelas ruas, nem mesmo em meu destino: o bosque. Sentei numa pedra pertinho do rio e ali fiquei. Desconectei os fones, deixei o celular de lado e ali fiquei. E fiquei. E fiquei. E fiquei. Me reencontrei. Desconectei os fones para conectar a alma. Precisava disso.

Voltei.

Voltei pelo caminho mais longo, porque é época de Natal e o centro da cidade fica admirável nesse período. Mandei um áudio para o meu namorado. Áudio que só chegou quando entrei na zona de wifi, vulgo minha casa.

Casa vazia.

Imaginei que o segundo filme precisava de uma pipoca.

Fiz.

Dei play e aí me embrenhei na vida de Sebastião Salgado.

Sem dúvida, esse foi o melhor documentário assistido no melhor momento possível. Sim, a vida e as obras de Sebastião Salgado são incríveis, mas o documentário apresenta muito mais que isso! Mostra a sensibilidade dos que escrevem em luzes e sombras, mostra a tragédia da maneira mais poética que já observei, mostra a felicidade honesta e mostra uma revolução humana gigantesca.

É interessante assistir à vida de um economista que resolveu se tornar fotógrafo e Lélia, sua esposa e arquiteta, sendo a melhor companheira nessa jornada arriscadíssima, a partir daí a vida do casal começa a se desenrolar e o risco se tornou a maior dádiva na vida da Família Salgado (depois dos meus pais, esses dois se tornaram a minha inspiração matrimonial). Nosso querido Tião vagueia pela Europa, América Latina, África (acho que as fotos mais dramáticas estão em todas as suas idas à África), as fotografias são apresentadas entre as filmagens, ora com narrador em off ora com a voz do próprio Sebastião Salgado. É um trabalho inspirador do começo ao fim que traz, para quem o assiste, um olhar sincero sobre a nossa conexão com o universo.

Para quem deseja assistir, já sabem onde encontrar e vale lembrar que o documentário só tem o áudio francês, vocês vão entender no decorrer das cenas. Bom, também acredito que fiz muito bem em me desprender do tangível antes de assistir ao Sal da Terra. Me senti um pouco como o sal da Terra.

Obrigada Netflix.

Obrigada Sebastião Salgado.

E agradeço aos que esperavam ler um review e, mesmo sabendo que não seria, continuaram a leitura.

ele e eu… ali

lá estávamos, ele sentado numa cadeira giratória em cima de um tapete daqueles que imitam persa e fazem um carinho gostoso no pé descalço. eu, sentada num banco alto que me fazia arcar as costas um pouquinho para me apoiar na bancada branca com uns Respingos de molho da macarronada do jantar. tá confortável? arrumei a postura. sim! naquele momento o conforto não vinha da péssima postura que deixaria qualquer profissional de pilates maluco. o conforto era do momento. o conforto de me sentir segura, mesmo que ele não soubesse… bom, se ele chegou nesse trecho agora sabe. esse conforto nenhum desconforto arranca.

era noite de sábado, e sem perceber lá estávamos, ele sentado numa cadeira giratória editando um podcast. eu, sentada num banco alto que me fazia arcar as costas um pouquinho Para editaR um texto. vou fazer café. desci do banco magirus. brigado, amor! o abracei. aqui, só falta adoçar. ele passou por mim e tocou minha cintura. terminei ali, você não quer ouvir? suspirei. sim! você lê aqui quando eu terminar? 

trocamos de Posto e lá estávamos, eu sentada numa cadeira giratória em cima De um tapete daqueles que imitam persa e fazia um carinho gostoso no meu pé descalço enquanto ouvia a edição dele. ele, sentado num banco alto que o fazia arcar as costas um pouquinho para apoiar numa bancada branca com uns respingos de molho da macarronada do jantar enquanto lia a Minha Edição. tá bom? sorri. Nossa, tá muito bom! para mim ainda faltavam vinte e poucos minutos para que minha atenção pudesse ser desviada. terminei. Tá genial! gritei para a voz atravessar a parede. Que bom que gostou. Vamos dormir? a voz atravessou. Vamos. já não havia mais parede, a voz podia ser mais sussurrada.

e lá estávamos nós.

ele e eu…

ali.

Coisas de mãe: Utilidade Pública

Acho que a partir do momento que você faz um exame de sangue ou faz xixi num termômetro de hCG e ambos geram um resultado positivo para a gravidez, além da consequência lógica dos fatos, durante nove meses a mulher deve receber constantes vibrações de curandeiros divinos, porque ó…

Acordo hoje cedo, olho para o lado e percebo que meu lençol de elástico (que por sinal, é maior que a minha cama) está frouxo e parte do colchão fica aparecendo. Isso me causa uma agonia homérica! O que faço? Levanto o sigo em frente como se nada tivesse acontecido? NÃO! Vou arrumá-lo. Assim que tiro os travesseiros, eis que encontro três dentes de alho que dormiram comigo!

Como assim? Pois é! Coisas de mãe… Enfim, minha mãe descobriu que dormir com três a cinco dentes de alho debaixo do travesseiro ajuda a nos proteger contra gripe e outras viroses, o que é MARAVILHOSO nesse período de Zika, dengue, H1N1 e otras cositas más. Bom, confio piamente em minha querida mãe, mas fui pesquisar.

E SIM! Essa prática ajuda a purificar o ar do ambiente, protegendo contra vírus e outros microrganismos causadores de doenças. Esse é um costume bem antigo e já esquecido (até o momento que você se torna mãe). E se você pensa que o quarto vai ficar fedendo a alho, é mentira! Tô há três dias dormindo com isso debaixo da minha cabeça e só hoje fui perceber.

Te amo, mãe!

Enfim, cheguei à quinta fase

Insônia.

Não, hoje não é por conta do trabalho exacerbado ou uma série na Netflix. Apenar neurônios se conectando tão freneticamente que posso sentir cada choque.

Me sinto viva.

Bem o bastante para fazer uma retrospectiva sentimental desses últimos trezentos e sessenta e cinco dias.

Naquele dia não chorei.

Ela me veio gritando no portão de casa. Ela caiu. A única coisa que poderia oferecer eram meus braços e um copo d’água. Ela me olhou e parou de chorar. Não, naquele dia eu não chorei. Pra falar a verdade, só pensava na cerveja que iria beber dali a pouco. Eu estava bem, muito bem! Ela voltou pra casa. E eu fiquei aguardando a carona. Todos me olhavam e conversavam cheios de dedos. Eu estava bem! Só queria beber. Fumar. Rir. E beber de novo. Eles tentavam me alegrar, mas eu estava alegre. Não sei bem o que se passava na mente de todas aquelas pessoas. Eu estava bem.

Claro, por um momento pensei que foi muita burrice aquele cara andar numa rua deserta às dez da noite e sozinho. Foi agoniante o neurologista chegar com seis horas de atraso para diagnosticar o que não precisava ser diagnosticado. Acho que não dei apoio suficiente aos que estavam comigo. Aquela garota chorou nos meus braços e eu só pensei na cerveja que iria beber logo depois. Quem sou eu?

Naquele dia havia tido um sonho horrível! Não queria sair do quarto. Algo me prendia ali. Eram tempos de mudanças. Iria mudar de cidade, mudar de vida, conhecer novas pessoas… Mas aquele sonho não foi normal. Estava em um beco e dois homem batiam na minha cabeça. Quando fiquei inconsciente, retomei a consciência com a sensação de que aqueles planos deveriam ser adiados, porque algo iria acontecer. Aconteceu. Não comigo. Não no futuro. Mas naquele instante. Eu poderia ter feito alguma coisa. Não fiz.

Numa tarde eu chorei. Sem motivos eu chorei. Chorei, não com aquela etiqueta social, mas com soluços, espasmos, ressentimentos e lágrimas que não tinham mais de onde brotar. Era tanta tristeza, que senti uma dormência emocional e paradoxalmente estava ali, com um sentimento tão excessivo que não sentia. Me sentia acalentada pelas quatro paredes do cômodo mais confortável da casa. Sozinha.

Involuntariamente, uma lágrima escorreu do meu olho direito. Mas é só uma saudade que ficou de um amigo que se foi. Trezentos e sessenta e cinco dias depois, penso que era pra ser.

Ah, o sistema límbico!

Trezentos e noventa e nove dias em silêncio.

Quando seu neurônio é bombardeado por estímulos emocionais, fica difícil pensar. Não sei lidar com sentimentos e a única coisa que me sobrou depois daquele Abril foram as sensações e eu me entreguei a este desconhecido labirinto emocional.

Cheguei ao final.

Preciso voltar.

Dois mil e quinze conseguiu a proeza de me arrancar do âmago qualquer inspiração racional sobre minhas emoções.