26 minutos

Oito e trinta e quatro. Uma garota passa por mim. Não sei se é vizinha, se é da redondeza, ou não passava de uma garota que passava por mim. Tranquei o portão. Solto o cachorro ou o deixo preso? Ele não latiu tanto. Deixo preso. Achei que fosse chover, mas só estava nublado. O farol do trilho esquerdo do trem piscava. Nunca sei o que significa o piscar do farol de um trem, mas imaginei que algum veículo ferroviário passaria por ali em algum momento. Que não seja durante a minha passagem. Não sou de acordar cedo, quando acordo, não gosto de ser incomodada. Deixar carro passar me incomoda, deixar moto passar me incomoda, deixar bicicleta passar me incomoda. Óbvio que um trem iria me incomodar. Não passou nenhum trem. Vi meu amor de infância (professor de informática em 1998). Não vi o velhinho que sempre me diz “Bom dia”. Será que só está dormindo até mais tarde ou aconteceu algo grave? Criei um elo imaginário com ele. Talvez ele tenha Mal de Alzhaimer e me esqueça logo depois que saio de seu campo de visão. Eu o vi definhar naquela cadeira de rodas e me preocupo nos dias que ele falta. Continuei a andar. Passei entre uma moto e um carro… Em movimento. A moto passou, o carro buzinou. Não, não era um homem machista, mas uma mulher correta que quase respondeu por um homicídio culposo. Na cabeça dela, porque meu senso de espaço egocêntrico estava sincronizado com a minha falta de paciência. Continuei. Viva. Cumprimentei um senhor que sempre me cumprimenta de um jeito estranho, por que ele faz essas ondinhas com os quatro dedos? O semáforo fechou. Passei. Virei a esquina. Passa por mim um monstro a la Léo Stronda! O segui por alguns passos, o suficiente para que ele pudesse observar seu tríceps e braquial em todos os reflexos das lojas daquela quadra. Ele virou à direita. Eu continuei. Quebrei o silêncio. “Oi! Aqui a chave” “Fiquei com medo de você não vir. Vai trabalhar agora?” “Tranquilo, acordei só pra trazer a chave mesmo. Volto mais tarde.” “Beleza, até mais tarde!” “Até!” Cogitei fazer um caminho diferente, mas quando vi já estava na metade do caminho que já tinha feito pra vir. Se eu virasse naquela esquina, talvez ainda consiga desviar pra um caminho novo. Já estava no farol do trem que, por sinal, ainda piscava. E, por sinal, dessa vez vinha um trem. Sem alvoroço passei antes dele. Se eu parasse, esse post não saía. Lembrar de tudo depois de interromper parte da minha manhã amaldiçoando um veículo que, pela teoria do caos, teve que estar ali naquele instante infortúnio seria trágico. Destranquei o portão e soltei o cachorro. Nove em ponto! Vinte e seis minutos sentindo uma brisa gostosa, em paz dentro da minha redoma de misantropia matinal. Voltei a dormir.

A vida em uma hora

Ônibus são desconfortáveis, mas às vezes a gente torce para que a viagem dure uma vida inteira, mesmo que a poltrona não recline o tanto que você queria que reclinasse, mesmo que haja crianças esperneando para suas mães de primeira viagem que mal sabem que aquele choro é de cólica e que isso tem solução, mesmo com aquele moleque a três poltronas para trás ouvindo seu peculiar gosto musical nada relaxante para uma viagem de uma hora.

Oi, posso me sentar aqui?
Claro, deixa só eu tirar essa bolsa. Pronto! Fique à vontade.
Obrigado!

Ignorei a falta de reclinação da poltrona, o choro do bebê e o moleque da caixa de som portátil. Sua voz era linda e falava de um modo que não cansava. Junto com ele sentou também seu cheiro amadeirado misturado com roupa limpa. Não era um rosto conhecido, me lembraria daquele maxilar que mordia a cada vez que olhava profundamente durante minhas réplicas. Mas eu também nunca havia pegado aquele ônibus tão cedo. Talvez fosse o destino. Talvez fosse coincidência. Talvez isso acontecesse sempre, mas só parei para observar porque era ele. Talvez ele sempre pegue esse ônibus e eu seria uma novidade para ele. Por via das dúvidas, passei a viajar apenas nesse horário. Fingi que eram meus primeiros meses de trabalho, fica chato dizer que viajo há um ano e só nos últimos dois meses decidi que era bom acordar às cinco e meia todos os dias. Não! Fica muito na cara que fiz isso por ele. Ele não precisa saber de tudo, mesmo porque só namoramos. Hoje ele está estranho. Entrou sem falar nada, perguntei o que havia acontecido. Você sabe o que aconteceu. Eu sabia. Pedi desculpa, mas ele sentou na poltrona da frente. Não aguentou muito tempo e veio me dar um beijo. Muito me agrada o seu humor inconstante, sarcástico, orgulho e sempre acompanhado de um súbito arrependimento. Lentamente ele foi caminhando a ponta dos dedos de sua mão direita sobre minha mão esquerda. Nossos dedos se cruzaram. Lentamente fui apoiando minha cabeça em seus ombros. Ele é a pessoa mais confortável que já conheci. Mesmo depois de anos ainda fico sem graça pela sua mão ser tão macia quando a minha que, por sinal, não tem nada de veludo. O que ele poderia ter visto em mim? Não pense, só sinta. Senti. Acho que formamos um bom par. Ele disse. Acho que deveríamos desconjugar nossos eus. Nos tornamos nós. Pode beijar a noiva. Casamos numa manhã de outono. Ah, se a viagem durasse uma vida inteira!

Bem, eu desço aqui. Foi um prazer! O seu nome?
Carol, e o seu?
Bruno.

Mas eu fui

Saí de casa para trabalhar. Não era dia de trabalhar, mas fui. Poderia fazer os serviços daqui de casa, mas lá tem um vidro no lugar da parede onde assisto a avenida. Aqui, uma janela que vejo a copa de uma terminalia catappa. Não desmerecendo a flora, mas acho que ser coadjuvante do caos urbano é um excelente estudo sociológico. Um semáforo verde, onde o congestionamento continua por conta de uma mulher embriagada e que resolveu fazer o mesmo que eu: observar. Só que na frente de um caminhão. Em partes estava correta, estava na faixa de pedestres. Além disso, pessoas passam, pessoas fazem uma pausa para olhar o adesivo gigantesco que separa o mundo de mim.  E quando elas chegam nas últimas linhas é quando me sinto ligada a elas. Se eu pudesse pontilhar o ponto de visão de cada um que chega nas últimas linhas, os pontilhados chegariam nos meus olhos. Eles não sabem, mas olham pra mim. Eles não sabem, mas eu olho pra eles. Será que quer um emprego? Será que esse mísero adesivo mudou a vida daquele jovem? Será foi só curiosidade? Será que… Whatsapp chamou. Era a chefe. Mensagem de voz. Por favor, Carol, poderia me mandar por e-mail com a capa do jornal em pêdêéfe? Obrigada! Enviado. Voltei o olhar para o vidro quando minha visão periférica captou o encerramento de serviço do posto de gasolina. Luzes apagadas! Era dez e meia da noite e eu ia embora a pé. Será que eu fiz certo em sair de casa para trabalhar? Não era dia de trabalhar, mas fui. Encontrei um leitor que parou e me cumprimentou com um abraço. Sinto falta dos seus textos. Nossa, obrigada, mas preciso de mais tempo pra escrever. Não, você precisa se apaixonar, abrace a vida! Abracei suas palavras. Saí de casa para trabalhar. Não era dia de trabalhar, mas fui. Poderia ter feito os serviços lá de casa, mas acidentes de percursos são necessários. Me apaixonei.

Amores são como livros

“Amores são como livros.”

Uma expressão criada por mim durante uma ajuda desesperada a um amigo que sofria pelo término com a namorada. Ele terminou, queria voltar pelo costume de tê-la ao lado, mas queria seguir a vida pela experiência que já possuiu e tinha consciência que passaria de novo. Às vezes o costume é o “lobo” e o amor o “cordeiro” e nos enganamos pelo placebo emocional.

Depois de muita conversa e um par de ouvidos pacientes com a prolixidade do fracasso alheio, minha mente trabalhava num argumento mais tangível. Afinal de contas, nesses momento de desequilíbrio emocional não somos nada racionais e precisamos de um tapa na cara, seja ele físico ou emocional. Então soltei: “amores são como livros”.

E são!

Tenho uma prateleira vermelha em meu quarto em frente à minha cama, da qual dei uma breve observada nela agora enquanto escrevia. Ali tenho diversas coisas além da bagunça: uma pequena estatueta de Jack, dois gatos de porcelana, uma coruja de prata, três corujas de madeira asiática, um abajur e na parte de baixo dezenas de livros. Muitos deles já lidos, outros para ler e um estou lendo. A Psicanálise dos Contos de Fada.

Por ter lido muitos livros, tomei a literatura como a definição mais próxima de relacionamentos. Mesmo que estejamos lendo a descrição fictícia ou real de um outro autor, ela acaba se tornando a extensão de nós, porque nos envolvemos, porque nos identificamos. Criamos um compromisso de ir até o apêndice!

Têm livros que valem a pena uma segunda leitura. A história é aquela, não vai mudar se ler outra vez, mas há a possibilidade de um novo entendimento a partir do nosso amadurecimento. Têm outros se tornam eternos livros de cabeceira. Não precisamos lê-los do começo ao fim. Não tem um fim. Mas em algumas noites antes de dormir você o abre e lê algumas páginas.

Nas cabeceiras geralmente estão os cronistas e os poetas. Ah, esse romantismo racional sempre sobressai. É como se propositalmente esquecêssemos seu conteúdo para nos impressionar constantemente com as mesmas palavras. Já dizia Nietzsche “A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez.”

Criamos um elo com os livros assim como criamos com nossos amores. Todo livro é interessante, só precisamos compreender a história. Se ele vai se tornar um livro de cabeceira eu não sei, mas o conteúdo vai ficar na sua memória, nem que seja uma vaga lembrança sobre o assunto.

Sobre meu amigo?! A garota se tornou um livro de cabeceira, o cordeiro não tinha nada de lobo e do caos surgiu a calmaria. Fim.

Okay?

Okay?

“Passei a maior parte da minha vida tentando não chorar na frente das pessoas que me amavam. Você trinca os dentes. Você olha para cima. Você diz a si mesmo que se eles o virem chorando, aquilo vai magoá-los, e você não vai ser nada mais que uma tristeza na vida deles.”

(A Culpa é das Estrelas)

Acabo de voltar de um cinema onde um universo de pessoas entraram sorrindo, com assuntos vindos de vozes continuamente adoráveis de se ouvir e saíram com olhos inchados e cordas vocais trêmulas. Me senti dentro de uma câmara de gás de Auschwitz tamanha era a agonia nos ruídos alheios. Vocês não atrapalharam… Também fiquei em prantos.

E com meu abadá ocular, voltei pra casa com meus olhos inchados. Chorava pelo filme, pelo enredo, por lembrar que chorei enquanto lia tal livro que auxiliou no roteiro. Talvez tenha assistido este filme num momento não tão agradável. Talvez tenha sido o momento exato. Visando a unanimidade dos fatos, é bem provável que o filme toque de alguma forma cada um que sentou naquelas poltronas de couro onde dois telespectadores brigam para apoiar seus cotovelos. Cheguei primeiro.

Agora, sentada no meio de uma cama de casal com lençol azul e uma cabeceira nada confortável, deixei de derramar lágrimas pela história e elas fluíram como se soluçar e lacrimejar fosse uma nova forma de respiração que aprendemos em aulas de yoga. Fiz yoga e não peguei esta aula. Ninguém pegou. É somente um composto de água, sais minerais, proteínas e gordura. Nada tem a ver com respiração, apesar de me parecer estranhamente normal.

Bem, o romance de John Green me despertou um amor gigantesco pelo fictício personagem de Gus, aquele que traga um cigarro apagado. Despertou um desespero por aquela que ultrapassou o trópico de câncer. Despertou meu amor por aquela que se sentou ao meu lado direito. Despertou assombro pela mudança repentina. Despertaram as lágrimas.

Eu chorei. E mais um vez… Ninguém viu.

Declaro fim da guerra

“Evolua mesmo se você desmoronar por dentro.” (Clube da Luta)

Assinei o Tratado de Versalhes de uma guerra em que Tríplice nenhuma perdeu. Criei meu próprio movimento de resistência e cravei na têmpora do oponente a única bala de uma roleta russa. Minha última palavra.

Às vezes é necessário ser o Tyler Durden para nortear um narrador.

Às vezes é necessário assassinar um Francisco Ferdinando para saber qual a sua Tríplice.

Eu assassinei.