Enfim, cheguei à quinta fase

Insônia.

Não, hoje não é por conta do trabalho exacerbado ou uma série na Netflix. Apenar neurônios se conectando tão freneticamente que posso sentir cada choque.

Me sinto viva.

Bem o bastante para fazer uma retrospectiva sentimental desses últimos trezentos e sessenta e cinco dias.

Naquele dia não chorei.

Ela me veio gritando no portão de casa. Ela caiu. A única coisa que poderia oferecer eram meus braços e um copo d’água. Ela me olhou e parou de chorar. Não, naquele dia eu não chorei. Pra falar a verdade, só pensava na cerveja que iria beber dali a pouco. Eu estava bem, muito bem! Ela voltou pra casa. E eu fiquei aguardando a carona. Todos me olhavam e conversavam cheios de dedos. Eu estava bem! Só queria beber. Fumar. Rir. E beber de novo. Eles tentavam me alegrar, mas eu estava alegre. Não sei bem o que se passava na mente de todas aquelas pessoas. Eu estava bem.

Claro, por um momento pensei que foi muita burrice aquele cara andar numa rua deserta às dez da noite e sozinho. Foi agoniante o neurologista chegar com seis horas de atraso para diagnosticar o que não precisava ser diagnosticado. Acho que não dei apoio suficiente aos que estavam comigo. Aquela garota chorou nos meus braços e eu só pensei na cerveja que iria beber logo depois. Quem sou eu?

Naquele dia havia tido um sonho horrível! Não queria sair do quarto. Algo me prendia ali. Eram tempos de mudanças. Iria mudar de cidade, mudar de vida, conhecer novas pessoas… Mas aquele sonho não foi normal. Estava em um beco e dois homem batiam na minha cabeça. Quando fiquei inconsciente, retomei a consciência com a sensação de que aqueles planos deveriam ser adiados, porque algo iria acontecer. Aconteceu. Não comigo. Não no futuro. Mas naquele instante. Eu poderia ter feito alguma coisa. Não fiz.

Numa tarde eu chorei. Sem motivos eu chorei. Chorei, não com aquela etiqueta social, mas com soluços, espasmos, ressentimentos e lágrimas que não tinham mais de onde brotar. Era tanta tristeza, que senti uma dormência emocional e paradoxalmente estava ali, com um sentimento tão excessivo que não sentia. Me sentia acalentada pelas quatro paredes do cômodo mais confortável da casa. Sozinha.

Involuntariamente, uma lágrima escorreu do meu olho direito. Mas é só uma saudade que ficou de um amigo que se foi. Trezentos e sessenta e cinco dias depois, penso que era pra ser.

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Primeiro do Plural

Certa vez, numa mesa de bar, uma amiga me disse: “quando se ama alguém, estar com a pessoa é como estar sozinho.”

À princípio parece o mais louco dos paradoxos, mas é a mais simples verdade. Quando se está sozinho, não existe pudor. Sozinho ninguém é ridículo, ninguém é louco por conversar com o espelho ou com o oxigênio do ambiente. Ninguém se importa com a roupa que veste ou com o rímel que borrou num coçar de olhos brusco. Sozinho não existe desconforto no silêncio absoluto. Sozinho não se exige cobranças ou permissões. Faz e pronto!

Pode parecer insanidade, mas em meu dicionário mental a expressão “estar sozinho” é completamente diferente de “solidão”. Solidão dói. Estar sozinho é revigorante, é prazeroso, é agradável. Solidão nos faz sair para fumar e voltar como se o pulmão fosse um fardo. Fumar sozinho faz do vício um prazer homérico.

O ato de estar sozinho nem sempre remete à singularidade, é estar à vontade em si. Mesmo acompanhado.

Terceiro Andar

Ele parecia distante quando saiu e pegou suas tralhas do porta-malas do carro. Ele conversava, mas ele também sabia que a razão tinha que predominar. Eu mantinha o reflexo. Confesso que nunca desejei tão profundamente que minha cerebral bilateralidade fosse tomada pelo raciocínio extremo. Ele me convidou para entrar. No caminho até a porta eu era cérebro, mas durante os primeiros passos uma breve batalha mental foi iniciada e o eixo neurológico foi derrotado. Bastou-se minutos para me transformar num sistema cardiovascular violentamente intenso.

Não sei ao certo definir o sentimento que perdurou durante as curtas vinte e duas horas. Mas descobri que dentre as boas vibrações o amor está embutido e pode transparecer momentaneamente, muitas vezes no abraço, na falta de pudor e na maneira doce de se beijar. Confesso ter visto o amor no preparar do almoço, no compartilhamento de coisas, no companheirismo descompromissado e na preocupação despreocupada.

É apaixonante o modo como seu pé descalço pisa no chão, o jeito que coça a nuca e levanta as sobrancelhas por segundos antes de organizar o organizado, a maneira como tira a mecha do meu cabelo que fica em meus lábios por conta do vento e a forma que me fotografa com sua retina revelando uma polaroide de comentários. É encantador o modo desajeitado que tenta se mostrar boa pinta, o jeito que dá ao compreender meus discursos prolixos, a maneira como gesticula hiperbolicamente quando discorre sobre assuntos peculiares e a forma da qual me deixa tão à vontade que me sinto acompanhadamente sozinha.

É inevitável não estar 55% apaixonada.

Saudade da paixão

Certo dia em conversa mais pessoal com um professor da faculdade, estávamos falando sobre nossas desilusões amorosas e ele me veio com uma tese: a melhor época para o relacionamento perfeito é depois dos trinta, momento em que as pessoas compreendem que o sentimento vem com o tempo e os casamento acontecem de forma racional. Apesar de eu concordar com a ideia, afinal eu quero uma vida estável, um bom emprego, uma casa, um carro e filhos, eu sei que a probabilidade de eu conseguir isso com o hippie ali da praça é mínima. Mas sinto falta de não me preocupar com contas bancárias e simplesmente amar e construir tudo junto.

Quero sentir saudade, me preocupar porque sei que a outra pessoa também se preocupa comigo, confiar que mesmo longe ele sempre estará comigo, porque apesar de não estar presente somos prioridade um do outro. Quero aquele ciúme bom que cura só com um olhar, sem precisar discutir em casa. Quero deitar em seu colo sem precisar perguntar antes se posso. Quero que ele mexa no meu cabelo até que eu durma sem que eu peça, depois de muito observar ele percebeu que isso me faz dormir bem. O amor não precisa de provas, mas nos submeteríamos a provar nosso sentimento sendo eternos companheiros. Quero a proteção de um homem. Quero a diversão de um amigo. Quero o romantismo da pessoa mais apaixonada. E eu acho que pra isso não é necessário dinheiro.

Não me desfaço do amor racional, mas minha primeira intenção ainda não é uma troca de cofres.

Sou boba, não burra

Durante mais uma noite de insônia, ao invés de ler ao livro que meu pai havia me emprestado há muito tempo, resolvi ler crônicas da Clarice Lispector. Gosto dela e de seus tapas na cara cheios de sarcasmos e elegância. Dói, mas é uma dor tão gostosa que se torna vício. Viciei.

Enquanto lia, dispersava um pouco meus pensamentos com uma rede social tão deserta que só faltou o feno, mas ainda assim insistia no F5 para ver se uma nova atualização aparecia. Não apareceu. Continuei com a Clarice e minhas dispersões involuntárias, até que um dos textos me atraiu por romantizar aquilo que eu por vezes temia sua constância e resolvi compartilhar. Leia, é bacana!

Das Vantagens de Ser Bobo

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: “Estou fazendo. Estou pensando.”

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: “Até tu, Brutus?”

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

(Clarice Lispector)

Conheci alguns bobos e muitos espertos. Me considerava esperta, até me sentir boba diante de tanta esperteza. Adoro os bobos pela sua leveza. Os espertos se vangloriam por qualquer coisa que façam de caso pensado (tudo para eles é de caso pensado), enquanto os bobos apenas agem e depois esperam o resultado.

E sempre dá certo. Enxergamos o lado bom até mesmo no meio do caos. Somos bobos!

Pra quando ele chegar

A flor | Lisergia VerbalEncostei a porta da frente
Prendi o cachorro que foge
Afastei um pouco a cortina
Deixei espaço pra dança
Deixei a comida pronta
Por ele, livrei-me da rotina

Pra quando ele chegar
Quero o que há de simples
Talvez um pouco de estardalhaço
Quero um drama de Shakespeare
Quero o que me falta o nome
Pois não sobrou mais espaço

Pra quando ele chegar
Espaço não vai faltar

Três da madrugada

Num pequeno instante durante a noite aquela mulher se viu tão pequena quanto uma garotinha e deixou escorrer uma lágrima enquanto dormia em um quarto escuro.

Não sabia se era saudade ou amor puro. Algo apertava seu coração de tal maneira que a cada batida mais e mais sua respiração desvairava com sua mente.

Aposto na saudade. E ela só veio depois de sentir o amor mais profundo que já sentiu naquela tarde.

Ela não aguenta.
Ela não aguenta.