Perto e longe

Fiz minha oração e disse que ia dormir.

Não fui.

Fiquei ali deitada em meio a tudo o que é dele. Hoje ele não dormiria comigo. Bateu saudade.

Namoro à distância tem dessas, temos saudade de detalhes. Saudade do cheiro, saudade do toque, saudade do arzinho que sai da voz, saudade do brilho do olhar quando ele me encara depois do beijo, saudade do abraço no meio da madrugada, saudade do virar de lado do outro lado da cama que a gente senti sem se tocar. Tenho saudade da companhia, mas essa eu sinto de longe.

Mas saudade de verdade é passar uma noite à distância em meio a tudo o que é dele. Roupa de cama, travesseiro, peças íntimas, barbeador, aquele restinho de café da manhã, quadros, HQs e tudo ter apenas o cheiro. É só uma noite que apenas alguns metros nos separa e mesmo assim é namoro à distância. Perto e longe.

Confesso ter escorrido uma lágrima. Acho que te amo.

Sono bateu.

Boa noite.

ele e eu… ali

lá estávamos, ele sentado numa cadeira giratória em cima de um tapete daqueles que imitam persa e fazem um carinho gostoso no pé descalço. eu, sentada num banco alto que me fazia arcar as costas um pouquinho para me apoiar na bancada branca com uns Respingos de molho da macarronada do jantar. tá confortável? arrumei a postura. sim! naquele momento o conforto não vinha da péssima postura que deixaria qualquer profissional de pilates maluco. o conforto era do momento. o conforto de me sentir segura, mesmo que ele não soubesse… bom, se ele chegou nesse trecho agora sabe. esse conforto nenhum desconforto arranca.

era noite de sábado, e sem perceber lá estávamos, ele sentado numa cadeira giratória editando um podcast. eu, sentada num banco alto que me fazia arcar as costas um pouquinho Para editaR um texto. vou fazer café. desci do banco magirus. brigado, amor! o abracei. aqui, só falta adoçar. ele passou por mim e tocou minha cintura. terminei ali, você não quer ouvir? suspirei. sim! você lê aqui quando eu terminar? 

trocamos de Posto e lá estávamos, eu sentada numa cadeira giratória em cima De um tapete daqueles que imitam persa e fazia um carinho gostoso no meu pé descalço enquanto ouvia a edição dele. ele, sentado num banco alto que o fazia arcar as costas um pouquinho para apoiar numa bancada branca com uns respingos de molho da macarronada do jantar enquanto lia a Minha Edição. tá bom? sorri. Nossa, tá muito bom! para mim ainda faltavam vinte e poucos minutos para que minha atenção pudesse ser desviada. terminei. Tá genial! gritei para a voz atravessar a parede. Que bom que gostou. Vamos dormir? a voz atravessou. Vamos. já não havia mais parede, a voz podia ser mais sussurrada.

e lá estávamos nós.

ele e eu…

ali.

Coisas de mãe: Utilidade Pública

Acho que a partir do momento que você faz um exame de sangue ou faz xixi num termômetro de hCG e ambos geram um resultado positivo para a gravidez, além da consequência lógica dos fatos, durante nove meses a mulher deve receber constantes vibrações de curandeiros divinos, porque ó…

Acordo hoje cedo, olho para o lado e percebo que meu lençol de elástico (que por sinal, é maior que a minha cama) está frouxo e parte do colchão fica aparecendo. Isso me causa uma agonia homérica! O que faço? Levanto o sigo em frente como se nada tivesse acontecido? NÃO! Vou arrumá-lo. Assim que tiro os travesseiros, eis que encontro três dentes de alho que dormiram comigo!

Como assim? Pois é! Coisas de mãe… Enfim, minha mãe descobriu que dormir com três a cinco dentes de alho debaixo do travesseiro ajuda a nos proteger contra gripe e outras viroses, o que é MARAVILHOSO nesse período de Zika, dengue, H1N1 e otras cositas más. Bom, confio piamente em minha querida mãe, mas fui pesquisar.

E SIM! Essa prática ajuda a purificar o ar do ambiente, protegendo contra vírus e outros microrganismos causadores de doenças. Esse é um costume bem antigo e já esquecido (até o momento que você se torna mãe). E se você pensa que o quarto vai ficar fedendo a alho, é mentira! Tô há três dias dormindo com isso debaixo da minha cabeça e só hoje fui perceber.

Te amo, mãe!

Terceiro Andar

Ele parecia distante quando saiu e pegou suas tralhas do porta-malas do carro. Ele conversava, mas ele também sabia que a razão tinha que predominar. Eu mantinha o reflexo. Confesso que nunca desejei tão profundamente que minha cerebral bilateralidade fosse tomada pelo raciocínio extremo. Ele me convidou para entrar. No caminho até a porta eu era cérebro, mas durante os primeiros passos uma breve batalha mental foi iniciada e o eixo neurológico foi derrotado. Bastou-se minutos para me transformar num sistema cardiovascular violentamente intenso.

Não sei ao certo definir o sentimento que perdurou durante as curtas vinte e duas horas. Mas descobri que dentre as boas vibrações o amor está embutido e pode transparecer momentaneamente, muitas vezes no abraço, na falta de pudor e na maneira doce de se beijar. Confesso ter visto o amor no preparar do almoço, no compartilhamento de coisas, no companheirismo descompromissado e na preocupação despreocupada.

É apaixonante o modo como seu pé descalço pisa no chão, o jeito que coça a nuca e levanta as sobrancelhas por segundos antes de organizar o organizado, a maneira como tira a mecha do meu cabelo que fica em meus lábios por conta do vento e a forma que me fotografa com sua retina revelando uma polaroide de comentários. É encantador o modo desajeitado que tenta se mostrar boa pinta, o jeito que dá ao compreender meus discursos prolixos, a maneira como gesticula hiperbolicamente quando discorre sobre assuntos peculiares e a forma da qual me deixa tão à vontade que me sinto acompanhadamente sozinha.

É inevitável não estar 55% apaixonada.

Esqueci o que é namorar

Vejo os casais andando de mãos dadas pela rua e acho tudo muito lindo. A vida parece perfeita quando se tem um par. A gente se sente segura com a falta de compromisso aos finais de semana, porque até mesmo assistir à TV aberta é gostoso quando se está na companhia do namorado. Não existe drama quando seus amigos desistem da ideia de sair por causa da chuva, afinal, ainda estará acompanhada do namorado. Pode não ser a mesma coisa, mas não estará sozinha. É a tal acomodação sensorial saudável.

Sei que namoros não são simples e envolvem muitos outros fatores que me fazem crer que me esqueci o que é namorar. Meu último relacionamento não foi um bom exemplo de namoro. Sei que namoramos, porque ele mudou o status de relacionamento no Facebook, mas nunca ouvi de sua boca “quer namorar comigo?” Simplesmente aconteceu, foi mágico e ao mesmo tempo trágico. Será que atualmente as redes sociais são o ponto forte de uma relação a ponto de você deixar as alianças de lado e ter que ceder a um perfil compartilhado com a data do início do namoro no nascimento?

Tenho uma participação alheia em alguns relacionamentos e visualizando tudo em terceira pessoa, eu acho que a interpessoalidade está acabando e dando lugar frios carinhos dos emoticons do WhatsApp. Não quero que esse Playmobil me abrace, quero você! E cadê? A linguagem escrita é basicamente o que o outro interpreta, onde está o tom de voz e o olhar? Talvez discussões ínfimas seriam dispensadas se fôssemos mais calorosos e compreensivos nos contatos.

Me esqueci o que é namorar quando faço questão da confiança recíproca e não tenho necessidade de me tornar um GPS para ficar recalculando a rota que ele desviou. Não sou patética, acredito nos meus instintos femininos, mas acho a desconfiança extrema muito desgastante. Não acho que colocar a pessoa amada numa cúpula de adoração seja agradável, no máximo vou inseri-la em meu mundo bolha para ficar de nhénhénhé e “baby talk” que eu tanto julgo, mas admito fazer isso na fase de vislumbre da relação (#VergonhaAlheia).

Me esqueci o que é namorar quando percebo quão mecânico se tornam os “bom dias” e os “boa noites” dos namorados que têm a obrigação de ligar assim que abrem os olhos. Por mais romântica que eu seja, num dia de cólica provavelmente meu “bom dia” sairá dos meus lábios por educação. O sentimento está aqui, eu o sinto, mas o incômodo físico é maior, lamento. Com certeza, num relacionamento convencional, trocar meu futuro marido pelo Atroveran seria digno de drama e quiçá um término. Será que isso é amor?

Me esqueci o que é namorar quando tenho que provar meu amor. E qual seria a maior prova de amor se a compreensão, o respeito e a confiança não bastam?

Nunca soube o que é namorar.

Medianeras

Medianeras

Contando sobre minha indiferença e facilidade em escolher estar ou não com alguém, me perguntaram se eu já amei e eu afirmei tal sentimento me referindo ao passado. Eu menti. Não sobre o amor, mas sobre a conjugação verbal.

Eu amo.

Na maioria das vezes, o amor da nossa vida se encontra num raio de 60km do nosso marco zero. Será? Neste exato momento estou deitada numa cama de casal, tendo como companhia um notebook, umas bagunças no lugar onde deveria ser seu, além dos meus neurônios queimando com a ideia de que em algum canto do universo existe um cara nas mesmas condições que eu, talvez escrevendo, talvez fumando ao lado de um amigo, talvez apenas dormindo pensando na desconhecida que está a uma distância indecifrável de si. Será que estou fisicamente distante, ou apenas nossos corações estão geograficamente fora de eixo?

De qualquer forma, platonicamente ainda te amo.

Pra quando ele chegar

A flor | Lisergia VerbalEncostei a porta da frente
Prendi o cachorro que foge
Afastei um pouco a cortina
Deixei espaço pra dança
Deixei a comida pronta
Por ele, livrei-me da rotina

Pra quando ele chegar
Quero o que há de simples
Talvez um pouco de estardalhaço
Quero um drama de Shakespeare
Quero o que me falta o nome
Pois não sobrou mais espaço

Pra quando ele chegar
Espaço não vai faltar