Desce daí, seu povo! Desce daí!

Era quatro e quarenta e três da manhã. Lá estávamos nós dois voltando dos nossos poucos dias de férias, em pé na estação da Sé. A demora e o sono me fizeram embarcar antes do metrô chegar. O estopim não foi o sono, mas a trilha sonora criada pelo moço de camiseta verde limão. Havia algo escrito em branco em sua estampa, mas sua movimentação enquanto cantava não me permitia ler. Não li.

Não sei o que ele queria dizer com a letra, mas as pessoas que ali estavam o respondiam baixinho. Ora concordando, ora rejeitando, mas na moita. Mas um velho me chamou atenção. Na verdade, a movimentação que fazia com o braço, jogando-o para frente para que surgisse o relógio que estava debaixo da manga era bem peculiar. Atrasado? De saco cheio? Não sei.

O vagão chegou, avistei dois lugares. Sentamos nos bancos opostos. Outra pessoa pegou aquele lugar demarcado pelo meu olhar. Tudo bem, naquele horário tinha lugar para todo mundo. O velho se sentou no banco preferencial. Não parecia querer tanto, mas era o único que havia restado e, às vezes, as pessoas são bem educadas. Ele murmurava algo. Oração? Raiva por ter sentado onde não queria? Ou só movimentação labial?

Olhando para a parte do vagão da qual meu campo de visão alcançava, aquilo daria um bom cenário para o início de um filme brasileiro. Era cinto e dois da manhã. Ao lado direito, um homem com camiseta do Corinthians laranja estava debruçado sobre suas coxas, outro estava segurando a mochila com olhar de que gostaria de sair o mais rápido possível do vagão para dar aquela tragada em seu Malboro. Lá no fundo, outro homem com semblante simpático mexia no celular até a chegada de sua estação. Ao lado esquerdo, um casal cansado voltava de viagem. A mulher conversava com ele e ele só respondia com a cabeça, balançando seu crânio com a boca entreaberta. Ele sabe para ele está dizendo sim? Ali no fundo, uma mulher cansada às vezes olhava para a minha direção. Desviava o olhar, mas queria continuar fotografando mentalmente aquele quadro e ela estava nele. Por fim, o velho.

Assim que uma dupla de mulheres das quais ainda não tinha mencionado saíram das poltronas azuis escuras, lá foi ele trocar seu lugar preferencial pelas poltronas azuis escuras. Seu semblante melhorou e ele olhava para os outros passageiros com um ar de superação. Ninguém viu. Todos tinham acabado de acordar para trabalhar, outros estavam voltando para descansar e outros estavam voltando de viagem, planejando as horas de descanso para otimizar o tempo vago antes de sair para o trabalho. Mas eu vi. Não sei se estava indo para o trabalho, visitar um familiar ou naquela maleta tinha apenas um livro para você ler em algum canto de SP. Mas agradeço a companhia que fez para nós, ainda que não saiba de onde estávamos vindo e para onde estávamos indo. Chegou bem?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s