Não só por mim

Não tenho depressão, nem nunca tive. E nem quero ter. Não só por mim. Porque muitos dos que me rodeiam já tiveram e eu não quero estar nessa condição. Na adolescência tive umas crises das quais me fizeram tomar goles de um perfume velho pra ver o que acontecia. A vontade de morrer era tamanha, que eu tomava míseras unidades de mililitros. Nunca deu em nada. Não dava. O objetivo não era esse. Era só ver o que ia acontecer.

Quando meu irmão nasceu, tinha desenhado um quadro pra ele. Era a parte de trás de uma tampa de caixa de papelão. Disse que gostaria que esse quadro ficasse pendurado na parede lateral do seu berço. Ele nunca foi pendurado. Meu irmão nasceu e eu simplesmente me esqueci da existência daquela arte. Eu achei que a chegada de uma nova pessoa fosse apenas a chegada de uma nova pessoa. Mas não. Eu, no alto dos meus dez anos, fiquei tão impressionada que aquele quadro ficou esquecido.

Ele cresceu. Ele adorava conversar com a outra irmã. Claro! Ela sabia como era ter uma irmã mais velha, ela sabia o que era nascer com a casa cheia. Eu não. Me sentia meio fora, mas ao mesmo tempo dentro. Jamais saberia como é a experiência de brincar com quem já estava ali. Eu só era a recepcionista nos antigos fetos.

Uma vez um dos meus pais me cobraram exemplo. Não sei o que acontece aos doze anos, mas todo mundo se torna um capeta. Eu mentia. Eu tirava nota baixa e escondia a prova. Embora tivesse ganhado um certificado de melhor redação da cidade, tive a proeza de ficar de recuperação em português. Eu falsifiquei a assinatura da minha mãe. Acho que a minha lua em escorpião estava gritando para ser notada. E foi. Mas passou. Definitivamente, não era um bom exemplo. Não me importei.

Uma época era fã de System Of A Down. Ainda sou muito fã do tipo que segue no Instagram e assiste aos stories inúteis dos quais vão me fazer ter ótimos papos com um grupo de amigas que fiz aos dezessete. Hoje estou com trinta. Meu irmão ouvia. E nas festinhas, ele queria essa playlist e eu organizava com o maior prazer. Era mais egoismo de ouvir o que eu queria do que fazê-lo feliz. Ninguém precisava saber.

Namorei. Durante esse tempo, tinha uma vontade louca de tocar bateria. O tal namorado dizia para eu fazer um curso relevante, afinal, bateria era só para quem gostaria de ser baterista. Eu não queria ser baterista, apenas tocar. Terminei. Não pela bateria, mas por falta de afinidade. O irônico é que iniciei as aulas de bateria logo depois. Meu irmão foi junto. Curtiu. Começou.

Dois anos de aulas semanais e parei. Me faltava grana e me sobrava orgulho para ser bancada pelos pais. Mas ele continuou. E entrou para uma banda que tinha um vocalista sensacional, que hoje é uma mulher trans mais foda ainda. Depois entrou um vocal bem ruim, mas era o show do meu irmão. Eu ia. Ele tocava muito System Of A Down. Eu enlouquecia, tipo as fãs dos Beatles em Febre de Juventude. Hoje ele é baterista em uma banda cover de Pink Floyd. Que, por sinal, aprendi a ouvir com meu pai.

Uma vez o peguei chorando. Chorando por uma garota. Era tanta dor. Uma dor que parecia que aquele seria seu último dia de vida. E era. O abracei. Quando chorei por um garoto, conversei com pessoas da minha idade. Pior coisa que pude fazer. Depois do abraço descobri que a garota não estava afim dele. Às vezes, por sermos mais velhos e termos tantas coisas para pensar, nos esquecemos de nos aprofundar em nossos pensamentos. Se eu paro para chorar, eu não trabalho. Não ganho dinheiro. Mas tempo era o que ele mais tinha. E chorar era necessário. Não tentei parar o choro. Só disse que não iria passar naquela noite. Talvez nem da próxima. E se passasse, quando ele a visse, talvez na volta para casa, se sentisse mal outra vez. A vida não acaba por isso, mas a gente acha que acaba pela falta de experiência com relação ao sofrimento.

Uma vez, minha irmã do meio me disse para não chorar sozinha. Chorar com os outros faz a gente falar e saber o motivo do choro. Chorar sozinha só nos faz acostumar com a ação. Não quero estar com depressão. Nem quero. Não só por mim. A tristeza dele passou. A vida passou. Tudo passou.

Tenho percebido uma coisa. Ele tem seguido meus passos. Jamais quis ser um exemplo. Mas sou sem querer. E ele consegue uma proeza genial. Ele segue, mas consegue chegar bem mais longe. Esses tempos ele disse que queria morrer. Conversamos. De onde ele tirou isso? Não sei. Mas nesse dia eu pensei que minha meta é ser a pessoa com a vida mais longa e feliz do mundo. Não só por mim.

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