A vida em uma hora

Ônibus são desconfortáveis, mas às vezes a gente torce para que a viagem dure uma vida inteira, mesmo que a poltrona não recline o tanto que você queria que reclinasse, mesmo que haja crianças esperneando para suas mães de primeira viagem que mal sabem que aquele choro é de cólica e que isso tem solução, mesmo com aquele moleque a três poltronas para trás ouvindo seu peculiar gosto musical nada relaxante para uma viagem de uma hora.

Oi, posso me sentar aqui?
Claro, deixa só eu tirar essa bolsa. Pronto! Fique à vontade.
Obrigado!

Ignorei a falta de reclinação da poltrona, o choro do bebê e o moleque da caixa de som portátil. Sua voz era linda e falava de um modo que não cansava. Junto com ele sentou também seu cheiro amadeirado misturado com roupa limpa. Não era um rosto conhecido, me lembraria daquele maxilar que mordia a cada vez que olhava profundamente durante minhas réplicas. Mas eu também nunca havia pegado aquele ônibus tão cedo. Talvez fosse o destino. Talvez fosse coincidência. Talvez isso acontecesse sempre, mas só parei para observar porque era ele. Talvez ele sempre pegue esse ônibus e eu seria uma novidade para ele. Por via das dúvidas, passei a viajar apenas nesse horário. Fingi que eram meus primeiros meses de trabalho, fica chato dizer que viajo há um ano e só nos últimos dois meses decidi que era bom acordar às cinco e meia todos os dias. Não! Fica muito na cara que fiz isso por ele. Ele não precisa saber de tudo, mesmo porque só namoramos. Hoje ele está estranho. Entrou sem falar nada, perguntei o que havia acontecido. Você sabe o que aconteceu. Eu sabia. Pedi desculpa, mas ele sentou na poltrona da frente. Não aguentou muito tempo e veio me dar um beijo. Muito me agrada o seu humor inconstante, sarcástico, orgulho e sempre acompanhado de um súbito arrependimento. Lentamente ele foi caminhando a ponta dos dedos de sua mão direita sobre minha mão esquerda. Nossos dedos se cruzaram. Lentamente fui apoiando minha cabeça em seus ombros. Ele é a pessoa mais confortável que já conheci. Mesmo depois de anos ainda fico sem graça pela sua mão ser tão macia quando a minha que, por sinal, não tem nada de veludo. O que ele poderia ter visto em mim? Não pense, só sinta. Senti. Acho que formamos um bom par. Ele disse. Acho que deveríamos desconjugar nossos eus. Nos tornamos nós. Pode beijar a noiva. Casamos numa manhã de outono. Ah, se a viagem durasse uma vida inteira!

Bem, eu desço aqui. Foi um prazer! O seu nome?
Carol, e o seu?
Bruno.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s