Depressão Pós-Operatória

Um amigo e eu pegamos um táxi. Ele para ir ao trabalho, eu para arrancar dois sisos do lado direito. Lá veio Seu Orlando com seu CD de sons de pássaros que nos primeiros cinco minutos acalmaram minha ansiedade causada pela primeira (micro)cirurgia da minha vida. Anestesias, cortes e pontos não são pra mim.

Bem, passados cinco minutos olhei para o meu amigo afim de iniciarmos uma conversa, porque aqueles pássaros presos nas caixas de som ao redor daquele sedan estavam me deixando atordoada. E esse Seu Orlando é muito esperto, trabalhou em nosso subconsciente e o único assunto que passava pelas nossas mentes eram as benditas aves!

Meu amigo saltou e eu fiquei, ele queria que eu ouvisse o canto do “trinca-ferro” e lá estava eu sozinha, sentada dentro de um táxi com um estranho conhecido, durante seis minutos e vinte e dois segundos ouvindo o gorjear de seus dois trinca-ferros gravados em seu celular touchscreen que ele demorou horas para encontrar a tal gravação. Minha ansiedade voltou. E meu riso deixou de ser a situação engraçada, mas o nervosismo de ter metade do meu juízo arrancado de mim até a raiz.

“Obrigada, Seu Orlando! Aqui está o dinheiro. E eu agradeço por me acalmar com seus cantos de pássaro!”
“Na próxima a gente ouve mais.”
“Ah, com certeza!” eu disse.
“Não terá uma próxima vez!” eu pensei.

Entrei num consultório branco com sala de espera de estofados coloridamente cítricos. Mal me sentei e a dentista chamou. Suspirei como um cachorro que será castrado e me deitei com as pernas dobradas naquela maca roxa super confortável. No mesmo instante troquei meu coque por uma touca, meus óculos escuros barato por um óculos de proteção do paciente que me deixou com a cara do Scott do X-Men, só que com a boca torta do Rocky Balboa e troquei minha sanidade por risos desesperados. A cirurgia começou e eu senti uma dor psicologicamente intensa por imaginar o que estava acontecendo, se tivesse apenas me preocupado em respirar talvez tivesse até dormido. Gente, não dói!

Saindo da sala recebi a lista de regras do pós-operatório: não fumar nas primeiras 72h, tomar apenas alimentos de frio para gelado, não ingerir bebidas alcoólicas, não fazer esforço físico, não sair ao sol, se houver hemorragia entre em contato e outros vinte e poucos itens. Cheguei em casa e minha cama já estava arrumada com um ventilador no meu rosto. Tomei sorvete, sopa fria e dormi muito. Foi revigorante! E no final na noite recebi a visita de um amigo e um colega de trabalho. Foi muito agradável.

Sinceramente minha expectativa quanto ao pós-operatório eram três dias tranquilos e cheio de regalias. Mas depois de vinte e sete episódios de Friends, onze testes de personalidade e um teste psicológico das cores que me diagnosticou como uma pessoa solitária, é inevitável que aconteça uma predisposição à depressão. Liguei para um disk açaí e conversei com o moço da entrega, liguei pra um amigo e a ligação caiu, liguei pra uma amiga e ela estava morta de sono, por fim liguei para minha irmã e conversamos por quase uma hora. Estávamos na mesma: sozinhas. Fiquei sazonalmente feliz. O dia seguinte seria a mesma coisa. Até acho que andar de táxi com o Seu Orlando ouvindo os tais “trinca-ferros” do seu quintal não seria má ideia.

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