Ele era de Vênus

Apesar de abrir os olhos e se deparar com a sublime sensação de estar em um mundo contrário ao seu, todos os dias ele abria os olhos e se deparava com a estranha sensação de adorar tal refúgio.

Sua fisionomia não fazia parte daquele lugar. Era alto demais e curvas de menos. Não era nada proporcional àquele visual das montanhas com estradas que deslizam de maneira tão leve que parece infinito. Apesar de finito e estranho, ele se camuflava atrás de uma capa regada à sentimentos extremos, instintos muito aguçados e baixo talento para problemas lógicos.

O que lhe trazia à razão marciana era meditar sob seu mantra onde o cérebro responde de forma contínua ao coração. Muitas venusianas não entendiam, mas compreendiam o que ele queria dizer com aquela filosofia. Elas discutiam. Para elas, o cérebro é só mais um músculo a ser exercitado. Coração sim era importante. Coração influencia a emoção. Coração aguça a atenção. Coração evidencia a percepção. Coração remete à memórias. Cérebro não faz barulho. Cérebro pesa. Cérebro não pulsa de forma síncrona nem mesmo quando está assustado. Cérebro não serve pra nada.

Apesar de ser gerado em um ventre de Marte, lá estava ele sentado a beira de um degrau de Vênus. E corrompido pela sua nova pátria ele fechou seus olhos e aceitou que Afrodite velasse seu afável corpo. E lá ficou aquele bastardo marciano abaixo do ácido sulfúrico venusiano.

E todos os seus dias de dúvidas foram concluídos. Ele era de Vênus.

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