Lágrimas

Hoje acordei estranha. Bem. Porém com uma sensação estranha de inferioridade. Nada vindo de forças externas, mas algo que vem de dentro. Um sentimento que acordou comigo. Pela primeira vez eu durmo num horário confortável com um hiato de oito horas entre uma piscada e outra. Foi revigorante. Foi bom. Eu gostei. Mas senti falta do abraço, da voz, do cheiro, da mão que chega de repente e aos poucos toma conta da cintura, do beijo na testa e do boa noite antes do fechar de olhos. Eu acho que isso me fez acordar bem, mas com um profundo sentimento de saudade. Nenhuma lágrima escorreu.

Cheguei atrasada ao trabalho. Avisei os gestores. Ninguém reclamou e pelo horário que disse que chegaria eles se surpreenderam com minha rapidez. Estava ofegante. Bati meu ponto e corri para a sala com o rosto vermelho, cansada de subir dois lances de escada e ainda passar quarenta passos conversando com um indivíduo que encontrei no meio do caminho. Não, não consigo passar pelo mesmo lugar que alguém sem, pelo menos, comentar que aquela cor de camiseta combina com a pele, ou desejar bom dia, ou simplesmente dizer “E aí, tudo bem? Bom trabalho!”. Sentei em minha cadeira azul, liguei meu Acer e desci. Não havia escovado os dentes em casa e aproveitei para passar um rímel. Nesta hora já estava feliz.

O fim do expediente chegou. Me meti em uma reunião que me roubou trinta minutos. Meu celular tocou, eu disfarcei e o suspendi em minha mão para que o vibra não fizesse tanto barulho. Dei uma olhada de relance e li “Hugh Laurie”. Depois eu ligo de volta. A reunião continuou. Eu falei. Ele falou. Eu pedi opinião. Ele deu. Eu sorri. Ele sorriu. Ela também, ali da outra sala. Eu voltei meu olhar e continuamos a reunião. Foi esclarecedora. Eu pedi licença e saí. No corredor eu liguei para o tal número. Era minha mãe. Conversamos. Vou ficar sozinha em casa e fui avisada que a chave estaria na casa da vizinha. Desliguei. Me ligaram novamente, só que desta vez foi meu ramal que tocou, a voz do outro lado me chamava para tomar café. Eu fui. Eu voltei. Estava atrasada, então fiquei mais um pouco. Não me estressei. Eu gostei de ouvir o silêncio do espaço vazio. Eu funciono melhor quando as luzes se apagam.

Bati meu ponto novamente. Atravessei a rua em frente a um ônibus que tinha o mesmo barulho de um caminhão e isso me deu um súbito desespero. Passou. Andei mais alguns passos e ao longe ouvi um ruído diferente, mas que para mim era conhecido e, por sinal, bastante traumático. Apertei meu passo a ponto de sumir daquele espaço antes que aquele som chegasse até minhas vértebras. Liguei incessavelmente para um dos números confortantes que sabiam do tal trauma cômico e bobo. Não atendeu. Continuei ligando, mesmo sabendo que continuaria não atendendo. Eu precisava me distrair. Em um tempo inesperado lá estava eu em meu ponto de chegada. A rodoviária. Carimbei meu passe. Esperei pelo veículo. Encontrei amigos. O tal veículo chegou. Busquei uma janela. Sentei em dois lugares e dois deixei os dois colegas atrás. Sentei virada para trás para continuar o papo. Fomos conversando durante duas cidades.

Saí. Fui para aula de bateria. Na verdade não estava afim de estar ali naquele momento, mas acabei pedindo ao motorista estacionar ali na frente. Ele estacionou. Eu pulei e ali fiquei. (pausa para ler SMS de Icetrick Bori) Voltei para casa. Me deparei com uma briga de três caras. Mudei o caminho. Fiz o caminho de sempre. Sozinha. Me senti insegura. Aquele sentimento estranho do primeiro parágrafo. Liguei na casa de um amigo. Torci para ele estar disponível. Ele mesmo atendeu. Pedi para a voz me acompanhar até em casa. Cheguei em casa. Peguei a chave na casa da vizinha, como o combinado às seis da tarde. Entrei. O lanche que pedi no meio do caminho, do qual não foi mencionado anteriormente, chegou. Paguei. Liguei a TV. Comi o lanche. Guardei um pedaço. Estava passando um romance bobo, mas digno de sentir emoção. Nenhuma lágrima escorreu.

O filme ainda estava passando. Eu ainda estava sozinha. Andei pela casa. Falei sozinha. Voltei para o sofá onde estava durante as duas horas de filme. Arrumei uns colchões. Deitei de qualquer jeito. Comecei a ouvir o silêncio. Senti três lágrimas atravessarem minha têmpora esquerda. Não estava com a vista cansada. Meus olhos não ardiam. As lágrimas escorriam. Me peguei pensando novamente na voz, no abraço, nos dialetos, no sorriso apaixonado e naquele toque cuidadoso. Meu olhos não estavam cansados. Eu chorei. E algumas lágrimas escorrem.

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